Escola cervejeira brasileira

O Brasil ainda não tem uma escola cervejeira própria. O país trabalha dentro da escola cervejeira americana, a mesma base que outros países sem tradição cervejeira antiga adotaram para construir sua própria cultura.

Mesmo sem escola própria, o Brasil já colocou um estilo no mapa mundial da cerveja e tem ingredientes que nenhum outro país usa do mesmo jeito. É essa mistura entre liberdade americana e matéria-prima brasileira que define a cultura cervejeira do país hoje.

Por que o Brasil ainda não tem escola própria

Desde 2011, quando formou a primeira turma de sommelières de cerveja, o chef Ronaldo Rossi ouve dos alunos a mesma pergunta: existe uma escola cervejeira brasileira? Mais de 15 anos depois, a resposta continua a mesma: ainda não.

Uma escola cervejeira nasce de séculos de tradição e de um jeito próprio de fazer cerveja, como a Alemanha fez com a pureza ou a Inglaterra fez com o pub. O Brasil começou a beber cerveja especial há poucas décadas, e ainda não desenvolveu esse caminho sozinho.

Quem cria um estilo primeiro define o caminho. Quem chega depois adapta o que já existe. Isso não diminui o talento das cervejarias brasileiras. Coloca o Brasil ao lado de outros países jovens na cerveja especial, como Noruega, Suécia, Itália e Portugal, que também constroem sua cena dentro do conceito americano.

A escola americana como base de trabalho

A escola americana virou um método, não uma tradição fechada. Ela oferece liberdade de receita, lúpulos intensos e cervejas autorais, sem exigir séculos de história por trás.

É esse método que o cervejeiro brasileiro usa todos os dias: lúpulo em destaque, cervejas extremas quando o projeto pede e experimentação sem cerimônia. A diferença está no que entra na receita depois: as frutas, as madeiras e os temperos que só existem aqui.

O que o Brasil já coloca de próprio na cerveja

Catharina Sour: o estilo com assinatura brasileira

O Catharina Sour é hoje o principal cartão de visitas do Brasil no mundo da cerveja. O nome faz referência a Santa Catarina, estado onde a receita nasceu. É uma cerveja ácida, leve, de teor alcoólico moderado, pensada para levar fruta.

A base ácida vem de uma fermentação rápida com bactérias lácticas, antes da fervura. Depois, a receita recebe frutas tropicais como maracujá, manga ou jabuticaba, que definem cor e aroma. O resultado é uma cerveja refrescante, fácil de beber e muito versátil à mesa.

Cervejarias de vários países já reproduzem o Catharina Sour hoje, algo raro para um estilo tão recente. É a prova de que o Brasil consegue criar dentro da liberdade que a escola americana oferece.

Amburana: a madeira que só existe aqui

Outra assinatura genuinamente brasileira aparece na maturação: a amburana. A madeira é nativa do Cerrado e da Caatinga, e o Brasil a usa há décadas para envelhecer cachaça.

Nos últimos anos, cervejeiros brasileiros passaram a usar tonéis e chips de amburana para maturar cervejas especiais. A madeira entrega notas de baunilha, cravo e canela, um perfil impossível de confundir com carvalho americano ou europeu.

Amburana em cerveja é uma combinação exclusivamente brasileira. Nenhuma outra escola cervejeira do mundo tem acesso a essa madeira.

Frutas e temperos do dia a dia brasileiro

Catharina Sour e amburana são só a ponta do que o Brasil coloca na receita. Cervejarias espalhadas pelo país usam maracujá, jabuticaba, cupuaçu, pimenta e outras frutas e temperos típicos daqui, dentro de IPAs, Session IPAs e cervejas ácidas.

Nenhum desses ingredientes cria uma escola nova sozinho. Juntos, mostram um jeito brasileiro de usar a liberdade da escola americana: menos regra, mais despensa nacional.

Fala aí, Chef

Desde a primeira turma de sommelières de cerveja que formei, em 2011, os alunos me fazem sempre a mesma pergunta: “Temos uma escola brasileira?”. Mais de 15 anos depois, minha resposta continua igual: ainda não.

O Brasil tem características próprias. Já temos estilos reconhecidos até internacionalmente, como a Catharina Sour, e ingredientes que só existem aqui, como a amburana, madeira muito característica de qualquer coisa brasileira, principalmente da cachaça, mas também usada no envelhecimento da cerveja. Tem muita coisa aqui que o mundo vai adorar conhecer.

Mas o Brasil não tem uma escola cervejeira própria. Usamos a escola americana, como várias cervejarias de outros países: Noruega, Suécia, Itália e Portugal fazem trabalhos incríveis dentro do conceito americano, assim como nós, brasileiros.

No antigo mundo, quem faz primeiro garante que tudo que vem depois seja uma adaptação do que já foi feito. Isso não quer dizer que o Brasil não tenha coisas fantásticas: quer dizer que o que os americanos já fizeram veio antes, e o resto do mundo parte dali.

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