
Se tem uma coisa que aprendi em quase 30 anos rodando cervejaria, dando aula e provando rótulo atrás de rótulo, é que toda marca boa tem uma história por trás que explica o gosto do copo. E a cervejaria Schornstein é um baita exemplo disso.
A história da cervejaria Schornstein
A história começa em Pomerode, Santa Catarina — a cidade mais alemã do Brasil, aquela que mantém enxaimel, festa típica e sotaque até hoje. Em 6 de junho de 2006, três sócios se juntaram numa ideia despretensiosa: fazer cerveja de verdade, do jeito que os imigrantes alemães que colonizaram a região sabiam fazer, dentro da tradição da escola cervejeira alemã. Nada de plano grandioso de virar gigante nacional. Era, literalmente, gente que gostava de cerveja boa querendo produzir cerveja boa.
Por que “Schornstein”?
Esse é o tipo de detalhe que eu adoro contar em aula: Schornstein significa “chaminé” em alemão. E não é um nome aleatório — a cervejaria está instalada num prédio histórico tombado, o antigo Mercado Weege, que tem ao lado uma chaminé de 30 metros de altura, feita de tijolo maciço, à moda antiga. Hoje esse prédio abriga o Schornstein Kneipe, o bar oficial da marca. Ou seja: o nome nasceu do prédio, o prédio nasceu da história da cidade, e a cerveja carrega os dois.

De vender só chope a virar fábrica de verdade
Até 2013, a Schornstein vivia basicamente de chope — produção pequena, mercado local, do jeito que quase toda cervejaria artesanal séria começa. O crescimento foi mostrando que dava pra ir além, e aí veio o salto: um investimento de R$ 5 milhões numa planta nova, ainda em Pomerode, que multiplicou a capacidade de produção de 25 mil litros por mês pra 300 mil litros por mês. Foi esse investimento que abriu espaço pra garrafa, pra lata, pra distribuição em escala — e pra Schornstein sair de Santa Catarina e chegar ao Brasil inteiro.
Os estilos que carimbaram o nome da marca
A Schornstein nunca foi de fazer só um estilo. O portfólio passeia por Pilsen, Weiss, Witbier, APA, Bock, Stout e algumas versões saborizadas, como a Bock com chocolate e pimenta. Mas o carro-chefe, sem dúvida, é a linha IPA — a IPA tradicional já levou medalha de ouro em festival brasileiro de cerveja, e a versão Imperial IPA, com 9,5% de álcool, chegou a ser eleita a melhor Imperial IPA do Brasil em concurso nacional em 2017. Pra quem gosta de lúpulo puxado, é rótulo obrigatório.
A virada: a fusão que criou a CBCA
Em 2019 veio um capítulo que muda a escala da história: a Schornstein se uniu à Leuven, cervejaria de Piracicaba (SP), e as duas formaram a Companhia Brasileira de Cerveja Artesanal — a CBCA. Foi um movimento estratégico pra unir força de produção, distribuição e inovação sem que nenhuma das duas marcas perdesse identidade. Hoje a Schornstein segue sendo a cara catarinense e germânica desse grupo, com fábrica funcionando ali em Pomerode, no mesmo endereço histórico onde tudo começou.
Por que isso importa pra quem está com a lata na mão
Eu sempre falo pros meus alunos: entender a história de uma cervejaria muda a forma como você bebe. Quando você sabe que aquela IPA saiu de uma fábrica instalada num mercado histórico de mais de cem anos, numa cidade que carrega tradição alemã na veia, o gole ganha outra camada. A Schornstein não é só mais uma marca no mercado — é um pedaço da colonização alemã em Santa Catarina engarrafado, e isso é história genuína, não marketing.